sábado, maio 14, 2005

O POETA SILVA VAREJOTA

Quem me falava muito do Poeta Silva Varejota (1865 - 1905) era o Prof. Manuel Gomes Guerreiro, primeiro Reitor da Universidade do Algarve, Secretário de Estado do Ambiente de um dos primeiros governos constitucionais, um homem de uma vasta sabedoria e um amante da poesia (era rara a conferência, ou publicação em que não citasse um poeta). Silva Varejota era dos Funchais, Tôr, Concelho de Loulé, sabia ler e escrever, vivia do amanho da terra e foi poeta afamado e de grande talento. No final dos anos 50 do século passado, outro professor, o Prof Manuel Viegas Guerreiro andou a tentar recolher poemas seus,mas só conseguiu recolher três «quadras», entendendo-se aqui por quadra um mote de quatro versos, desenvolvido em quatro décimas, que repetem no último verso cada um dos versos do mote. Eu consegui recolher mais uma «quadra» e alguns elementos biográficos do Poeta.Vejamos uma amostra:
Eu na terra fui nascido,
E eu na terra fui criado,
A terra me há-de comer
Depois de ser sepultado.
.....
A terra é a minha mãe,
Não no posso duvidar,
E para esta me criar
Tudo da terra me vem.
Eu à terra quero bem,
A terra bem me tem querido,
Eu na terra tenho vivido
E na terra é que hei-de ter fim,
Sei que a terra que é assim,
Eu na terra fui nascido.
.....
Eu na terra é que semeio
De todo o meu alimento,
Da terra tiro o sustento
E eu na terra é que passeio;
Da própria terra me veio
Água p'ra ser baptizado,
A mesma terra me tem dado
Tudo quanto me é preciso,
Tenho pena, se a terra piso,
E eu na terra fui criado.
.....
Deus à terra me mandou
Com o uso da razão,
A terra me deu pão
E o pão é que me criou;
Ao dispor da terra estou,
Visto na terra viver;
A terra me há-de valer
Enquanto nela for vivendo
E, depois, quando morrendo,
A terra me há-de comer.
.....
O corpo da criatura
É só da terra e nada mais,
Os nossos restos mortais
Estão sujeitos à sepultura;
Isto é a verdade pura,
Tudo na terra é criado,
Depois torna ao mesmo estado,
Visto na terra viver,
E a terra me há-de comer
Depois de ser sepultado.

3 Comments:

At 1:11 da manhã, Blogger HFR said...

Há um excelente mote da décima popular que várias vezes recolhei e muitas vezes cantei, que me ocorre por causa do Varejota (excelente):
Eu devo meu corpo à terra
A terra mo está devendo
A terra mo paga em vida
Q'eu pago à terra em morrendo.

 
At 1:12 da manhã, Blogger HFR said...

"recolhi" e não recolhei, claro. Foi por causa da rima...

 
At 2:23 da tarde, Blogger Pecaaas said...

Excelente! O Prof. Guerreiro, que julgo que era de Querença, muito fez na busca continua de recolher situações deste tipo!

 

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