Sexta-feira, Junho 03, 2005

PIRATAS

A costa algarvia foi durante muito tempo alvo de acções de pirataria que destruiram muito património, mataram gente e pilharam muita da riqueza regional.Recordo aqui dois desses «piratas» do sec XVI : Francis Drake e Robert Devereux, mais conhecido por Conde de Essex. O nome do primeiro ficou para sempre ligado ao ataque à região de Sagres em 1587 e destruição das suas principais construções. No entanto, se o acto em si se revestiu de uma enorme gravidade, ele teve um aspecto positivo. Drake antes de ordenar a destuição mandou fazer um levantamento em desenho de todo o património a destruir. Assim, graças ao documento que se conserva na British Library, podemos ter uma percepção muito aproximada de como era a região e e os seus monumentos, muito superior a qualquer descrição escrita.
O Conde de Essex está lamentavelmente associado ao saque da cidade de Faro e ao roubo de uma famosa biblioteca , organizada pelo ilustre bispo D.Jerónimo Osório (1506-1580) e seus antecessores, tendo os livros sido levados mais um vez para Inglaterra e oferecidos a Sir Thomas Bodley. Este senhor, erudito e diplomata, está ligado à reorganização da antiga biblioteca de Oxford, que veio a ser enrequecida desta forma com os livros pilhados ao Algarve e provavelmente a outros sítios, e por isso mesmo hoje é conhecida por Biblioteca Bodleiana. Tanto quanto sei, há uns anos e na sequência de diligências do Dr. Pinheiro Rosa, foram encetadas negociações diplomáticas para trazer os livros para Faro. Não sei se recentemente foi feita alguma demarche, mas também não acredito que tenha sucesso.Se a Inglaterra tivesse que devolver todos os bens alheios, o que é que aconteceria aos seus museus? José Pedro Machado, um ilustre farense, sugeriu há uns anos que se colocasse um letreiro bem visível na Biblioteca de Faro, traduzido em várias línguas, a dizer: «Os volumes quinhentistas que deviam existir nesta casa fazem hoje parte da Biblioteca Bodleiana, em Oxford (Inglaterra)». Mas também se interrogava, se o Conde Essex não transferisse aquela riqueza bibliográfica do Algarve haveria por cá quem fosse capaz de a conservar capazmente até hoje e também de a aproveitar utilmente? Fica a dúvida.