segunda-feira, agosto 01, 2005

PAI AOS 110 ANOS

Pouco depois do terramoto de 1755 o Marquês de Pombal ordenou que se fizesse um inquérito ás diversas freguesias do País para se saber da verdadeira dimensão da catástrofe e simultaneamente ficar com uma ideia mais precisa da realidade nacional. Em resposta a uma das perguntas genéricas do inquérito, o Padre de Querença escreveu: «Respondo como digno de memória nos prezentes tempos que a esta freguezia de Querença, aos dezasete dias do mês de Março de mil e setecentos e sincoenta e quatro annos falleceo hum lavrador xamado Simão Gonçalves, do sítio da Baicinha desta freguezia, tendo de idade cento e dezaseis annos. O dito lavrador foi cazado duas vezes : com a primeira molher cazou já de mayor idade; esteve cazado com ella sincoenta annos. Enviovou de cento e nove annos, cazou segunda vez pouco depois de viuvo, e teve huma filha tendo cento e dez annos, e viveo mais seis annos com a segunda molher; morreo o dito lavrador da sobredita de cento e dezaseis annos sem ser purgado, nem sangrado, digo, nem sangrado em toda a sua vida. Athé pouco antes da sua morte vinha muitas vezes a esta parochia, a pé, a ouvir missa, morando huma légoa distante para a parte da serra; nunca viveo ociozo, era insigne no tirar da espingarda, o seo ordinário sustento erão legumes, pão com mel, coelhos e perdizes; era homem pio e amigo da pobreza; na sua caza, em hum anno se achou hum seirão tresbordando de trigo, estando antes quase pello fundo, o que socedeo no tempo da primeira molher, em ocazião de grande estirilidade, cujo prodígio se atribuio ao pio e caritativo ânimo, com que ambos custumavão favorecer os pobres.»